Não precisamos de Country, temos os nossos “caipiras”!
Editor
São Paulo, 17 de setembro de 2025
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Começa pelo nome: country é palavra inglesa utilizada pelos americanos e quer dizer: ligado à vida rural americana (diz-se de atividade, estilo, vestuário, mobiliário etc. inspirado no referido modelo), de acordo com o Oxford Dictionary. Ou país. Está intimamente relacionado ao folclore regional, rural de lá.
A música regional, do campo, rural, ou seja, aquela que se diferencia da urbanidade aço-concreto, asfalto e gasolina, por ser tradutora do modo de vida de milhões de pessoas fora das grandes cidades, é mais um reflexo da simplicidade, da calma e do espírito mais integrado à natureza. Ainda que a apropriação mecanizada destes territórios já os tenha transfigurado e fragmentado.
Apesar disso, o nosso povo simples e atento, não se deixa enganar pelas baboseiras importadas e impostas na guerrilha cultural permanente do império branco capitalista do Norte. Sua índole lhes permite encontrar espaços para manifestação, crítica e cusparadas.
Reduzida aos poucos lugares de expressão, é levada e chega ao público com um aparato de instrumentos tradicionais simples. Viola, violão e sanfona, muitas vezes acompanhados de percussão miúda, ou bumbo, tarol, triângulo, também flautas (geralmente de madeira) ou gaitas. Assim instrumentalizado, este gênero situa-se no universo da música acústica.
Quando ligaram na tomada

O panorama cultural e musical brasileiro do ‘interior rural’ sofreu e ainda sofre enorme resistência do público urbanoide.
Menos pela qualidade de suas composições, canções poéticas e harmonia tradicional, do que pela ‘ava$$aladora‘ máquina do marketing cultural impulsionado pela grande mídia comercial.
Ainda que esta seja um rima pobre, (desculpem-me, leitores!) o fato concreto é que a eletrificação do mundo rural, e pela via da consequência, as adulterações dos costumes locais, trouxeram na bagagem modos de ser importados que nada têm a ver com o estilo do mundo rural brasileiro. Alguns chamam de (des)envolvimento.
Invasões culturais e exercício de poder
FALÁCIA – A ideia de que o Brasil é o celeiro do mundo, a grande fazenda de plantação e exportação de commodities (mercadorias) alimentares (além de minérios e outros produtos in natura ou semimanufaturados) é uma imposição do sistema. Segue um conjunto de projetos e ideias das nações mais ricas e poderosas instituídos no início de século XX, com apoio total dos latifundiários e fazendeiros locais.

Desde a república do Café com Leite, colonialistas de origem portuguesa, proprietários de grandes porções de terras tomadas a força e exploradas por mão de obra escravizada indígena e negra. Em seguida por imigrantes italianos e outros europeus (branqueamento?), esta apropriação indevida do território nacional (o que você entende por nação?) se estendeu às grandes cidades. Assim, tornaram-se grandes burgueses, industriais e comerciantes que se mantêm no poder, indistintamente, até os nossos dias.
Diferentemente da revolução francesa, a nossa burguesia traiu o povo, rapidamente. É possível que você, leitor, trabalhe para eles e não o saiba.
Das dores provocadas por esta alienação, por este abandono, exploração e ao mesmo tempo concentração de riquezas e poder, saltam as melodias e as poéticas “caipiras” reais de nossa gente. Reflexo desta traição que agora se manifesta com guitarras elétricas e poesia de baixo nível (com raras exceções) o “universo country“, de baixíssima qualidade musical.
Porém, rende muito dinheiro, e isso atrelado ao poder da mídia e do marketing atrai milhões de pessoas. Com isso, se vende desde cerveja, tratores, caminhões, planos de saúde, carros, roupas, carne de boi, frango, fast food até muito milho transgênico. Entretanto, se pretende ser o tradutor de uma cultura enlatada. Nada mais fake!
Sem saudosismos, conservadorismo ou nacionalismo hipócrita, o certo é que a verdadeira música caipira, regional, do interior rural brasileiro é atualmente uma farsa. Serve para políticos, empresários e “artistas” fazerem a festa e acobertarem os crimes do campo, as expulsões, as grilagens, as queimadas dando suporte ao tal agrobusines que de pop sequer tem o nome.
Valei-nos MST, artistas e ativistas rurais que defendem a natureza, e não apenas os negócios dos barões do agro e do boi.
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